Adaptame

ZAMA DE ANTONIO DI BENEDETTO POR LUCRECIA MARTEL

Entrevista:

Em Zama, qual foi a maior dificuldade de operar um diálogo com a literatura? O que significa “adaptar” literatura para as telas?

LUCRECIA MARTEL – O pior prêmio dado em várias competições ligadas ao cinema, aquele que melhor expõe a estupidez humana, é o de melhor roteiro adaptado. E eu te digo isso agora, muito antes de saber o que vai acontecer como Zama. Mas, se eu fosse premiada nessa categoria, eu me recusaria a receber o prêmio, a menos que fosse um prêmio em dinheiro. Aí, nesse caso, eu terei mil argumentos para me arrepender dessa bravata. É impossível adaptar um romance. A literatura não pode ser adaptada para o cinema. O que acontece é algo de uma outra ordem, digamos, médica, que se processa da seguinte forma:

Dia 1 – O sujeito lê um romance, como, por exemplo, Zama, que é uma obra-prima;

Dia 2 – Infectada pela beleza do livro, o sujeito se transforma, revira na cama incapaz de dormir, sedento por fazer parte do mundo ali retratado;

Dia 3 – Apaziguada a febre, o sujeito se dá conta da enorme estupidez que é fazer um filme baseado em uma obra-prima. E, geralmente, o sujeito se dá conta também que mais estúpido ainda é fazer um filme de que ninguém precisa;

Dia 4 – A cólica volta e também a febre, porque o romance revelou ao sujeito aspectos do mundo que ele não conhecia, revelando fendas abertas na realidade. Ele se dá conta da doença e dorme com ela.

Dia 5 – Começa humildemente a escrever um script cuja premissa é assassinar o romance que leu, pois, só assim, pode sobreviver.

Depois de O Pântano, um retrato de dilemas familiares pelo qual você foi premiada no Festival de Berlim, o cinema aprendeu com seus filmes a operar nas franjas do melodrama sem se render a excessos, atento a contenções. De que maneira você trabalha com os códigos mais clássicos do drama ou mesmo da tradição latina do melodrama?

LUCRECIA MARTEL – O Pântano é um tipo de filme que certamente não vai levar um diretor à riqueza. Ele é um caminho que, no máximo, pode render a um diretor acesso limitado a festas VIPs nos festivais. E, mesmo assim, esse privilégio pode ser perder se seu filme seguinte não estiver alinhado com as expectativas dos festivais. Isso pode ser um drama, mas um drama que é facilmente ultrapassado se o que levou o diretor a rodar filmes como ele é a sua curiosidade sobre o mundo e não o seu apego à badalação. Nossa dramaturgia, como por exemplo, as telenovelas, são carregados de referências às tragédias gregas. O apetite pela verdade, o turbilhão de desejos, as sucessões de confusões e mal-entendidos marcam nossos melodramas, que carecem de um aspecto da vida prática: o trabalho. Ninguém trabalha nas telenovelas, assim como não se trabalhava nas tragédias. Por vezes, dizem que os personagens trabalham, mas não há cenas que ilustrem isso. Se existe um aspecto medicinal, quase fisioterápico no cinema, é que ele oferece diferentes de representar como um personagem percebe o mundo ao seu redor. No cinema, às vezes, eu prefiro enquadrar uma orelha a um par de olhos. Uma orelha às vezes pode expressar mais.

Há um tom existencial recorrente nos seus filmes. Mas Zama parece portar algo mais, que aponta o universo político. Como é a faceta política do teu cinema?

LUCRECIA MARTEL – Não há nada mais misterioso, absurdo, doloroso e belo do que a existência. A consciência de existir pode levar alguém à beira da loucura. Todos nós podemos lembrar de um dia em que nos demos conta da existência. Às vezes, isso pode se dar pela morte de um ente querido, ou mesmo pela morte de alguém que não significa nada para nós, mas cuja perda revela quão fácil pode ser a extinção  humana. Estas experiências muito reveladoras poderiam se chamar rachaduras ou falhas. Mas sinto que “falha” é o termo mais apropriado porque sugere que algo deu errado. Quando elas aparecem, é sinal de que algo que queríamos esconder ganhou visibilidade, ainda que parcialmente. Quando, em nosso mundo tão real e tão sólido, algo – como uma linha, um diálogo, um gesto, uma substância proibida ou a Morte já mencionada por nós antes – expõe a falta de sentido da existência, temos a percepção da arbitrariedade com que decidimos tudo. Essa arbitrariedade vale seja para o modo de como se construir casas como para a maneira que devemos amar. Quando isso acontece, essas falhas nos permitem ver que o mundo poderia ser diferente. Surge daí uma força com poder para transformar a realidade. Reside nessa lógica o veio político para a narrativa audiovisual, porque com suas ferramentas de som e de imagem, nós podemos ir à procura de falhas. Ninguém pode permanecer nelas, pois a natureza da falha é ser efêmera. Por isso, se o cinema algum dia vier a ser extinto, a narração audiovisual, assim como todas as outras manifestações narrativas, não correm perigo, porque o motor que move as coisas na arte não é a película, nem os suportes digitais, e sim o desejo de voltar a enxergar nossas rachaduras.

Que lugar o cinema autoral, aberto aos riscos e pautado pela pesquisa estética, ocupa hoje na indústria audiovisual da Argentina?

LUCRECIA MARTEL – Posso dizer que há um fenômeno global entre os diretores tentando voltar no tempo e rever a tradição. Sou parte dessa tendência, embora tenha que confessar, como filha de Deus que sou, que, desde 2010, só faço trabalhar em Zama. No meu trabalho, entro em contato com muita gente jovem, sejam escritores ou diretores, e vejo com espanto, entre eles, essa curiosidade pelo passado. Talvez ela seja uma manifestação de medo do futuro ou uma incapacidade de analisar o presente ou, ainda, uma necessidade de colonizar outros espaços e se espandir por um território criativo cada vez mais vasto.

 

Source: https://omelete.uol.com.br/filmes/entrevista/a-literatura-nao-pode-ser-adaptada-para-o-cinema-diz-a-diretora-argentina-lucrecia-martel/

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